8/29/13

Conversando com Deus...

Achei esse texto bastante interessante. O original em inglês por Harry Stottle está em http://www.fullmoon.nu/articles/art.php?id=tal. Abaixo segue minha tradução livre.




Eu topei com deus outro dia 

Eu sei o que você está pensando. Como voce pode saber que era mesmo deus?  

Bem, eu vou explicar a medida que avançamos, mas basicamente ele me convenceu por ter todas, realmente TODAS, as respostas. Qualquer pergunta que eu atirava nele, ele rebatia com uma resposta plausível e satisfatória. Ao final, foi mais fácil aceitar que ele era deus do que o contrário.  

O que é estranho, porque eu ainda sou ateu e nós ate mesmo concordamos nisso!  

Tudo comecou às 8:20, em Paddington. Eu peguei um bom assento ao lado da janela, sem crianças gritando ou adolescentes bêbados ao alcance do ouvido. Nem mesmo um celular à vista. Me sentei, lia o jornal, e eis que ele entra.  

Como ele se parecia?  

Não como voce esperaria, com certeza. Ele tinha por volta dos 30 anos, trajava um par de jeans e uma camiseta. Definitivamente casual. Parecia que poderia ser um assistente social ou talvez um programador como eu. 

- 'Esse assento está livre?', ele disse 

- 'Fique à vontade', eu respondi 

Ele se senta, relaxa, eu ignoro e volto as cartas sobre comida geneticamente modificada entrando nos supermercados.  O trem comeca a andar e alguns minutos depois ele fala 

- 'Posso lhe fazer uma pergunta?'

Lutando pra nao parecer surpreso eu respondi "Sim" em um tom que dava a entender que poderia nao me importar com uma pergunta, possivelmente ate uma segunda, mas que definitivamente nao estava no clima pra uma conversacao. 

- 'Por que você não acredita em deus?' 

Filho da puta!  

Eu amo esse tipo de conversa e posso dialogar por horas sobre o nonsense das crenças teístas. Mas tenho que estar a fim! É mais ou menos como se um testemunha de jeová batesse à sua porta 20 minutos antes da sua operação de extração de siso. Por mais que você realmente adorasse ficar, não tem nem como começar a diversão. E eu sabia, se eu desse a minha resposta padrão, ainda estaríamos argumentando quando o trem chegasse a Cardiff. Eu simplesmente não estava no clima. Eu tinha que cortar ele.  

Mas entao eu pensei 'Como é que esse completo estranho está obviamente tão seguro - e correto  - sobre meu ateísmo? Se eu estivesse dirigindo meu carro, não seria nenhum misterio. Eu tenho o peixe de Darwin no vidro traseiro, o antídoto praquele peixe cristão que se vê por todo lado. Então, qualquer um que visse o peixe e o entendesse, iria adivinhar minha filosofia. Mas eu estava em um trem e nem mesmo usando minha camiseta que diz "Evolua" aquele dia. E o The Independent não é uma marca registrada para ateus de carteirinha. Então, eu me perguntei, o que entregou o jogo? 

- "Por que você tem tanta certeza que eu não acredito?" 

- "Porque", ele falou, "eu sou deus - e você não teme a mim"

Voce vai ter que acreditar na minha palavra, é claro. Mas tem meios de mandar uma dessas que fariam de quem proferisse tal frase um candidato a um hospício. Ou pelo menos prozac.  Falar assim como um "fato indiferente" é uma tarefa dificil, mas foi exatamente como ele fez. Nada no seu tom ou atitude me pareceu não combinar com a alegação. Ele disse isso porque ele acreditava nisso e sua racionalidade não parecia estar sendo induzida por drogas ou ser o resultado de um colapso mental. 

- 'E por que eu deveria acreditar nisso?' 

- 'Bem', ele disse, 'por que você não me faz umas perguntas? O que quer que você queira, e veja se as respostas satisfazem sua mente cética.' 

A conversa vai ser curta afinal, eu pensei. 

- 'Quem sou eu?'  

- 'Stottle. Harry Stottle, nascido a 10 de Agosto de 1947, Bristol, Inglaterra. Pai Paul, mãe Mary. Educado na Escola Militar Duque de York, de 1960 a 1967, Sandhusrt e Oxford, PhD em Exobiologia, frustrado cantor de rock, sindicalista ativo em tempo integral por 10 anos, ultimamente trabalhando como programador autônomo, autor na web e aspirante a filósofo. Casado com Michelle, cidadã americana, dois filhos de um casamento anterior. Voce está retornando à sua casa depois do que parece ter sido uma reunião bem sucedida com um investidor interessado no produto que você propôs para rastrear programas piratas, e você tomou um café da manhã inglês no hotel hoje de manhã, exceto que, como de costume, você pediu que substituíssem a intragável salsicha inglesa por uma porção extra de bacon.' 

Ele fez uma pausa. 

- "Você não está convencido. Hmmm o que seria preciso pra convencer você? Você me permite estabelecer um elo telepático?"

- 'Você precisa da minha permissão?'

- 'Tecnicamente, não. Eticamente, sim."

Bem, melhor entrar na brincadeira, eu pensei. - "Tudo bem, você tem minha permissão. Convença-me"

- "Muito bem. A sua senha mais secreta, e associação. " 

Um hacker da pesada poderia ter obtido a senha, mas ninguém, e eu realmente quero dizer  NINGUÉM  sabe da sua associação.  Ele sabia.  Então, como continuar o jogo? Eu lancei algumas questões a mais sobre detalhes de relativa insignificância sobre minha vida, mas que nunca foram publicados (como o que a minha mãe alega ter sido a minha primeira palavra. Aparententemente, "taturana!" (não pergunte)) mas eu já estava bem convencido. Eu sabia que nesse ponto, só havia três possíveis explicações. 

Primeira possibilidade. Eu estava sonhando ou alucinando. Ninguém inventou um teste pra isso, então, eu acho que naquele momento esse era o meu sentimento dominante. Não pareceu real quando aconteceu. Era como se eu estivesse em um teatro, praticando as minhas falas. Desde o evento, entretanto, eu tenho memórias contínuas e detalhadas, e também as minhas anotações. Então, a menos que a alucinação tenha continuado até hoje, eu me sinto inclinado a rejeitar a hipótese da alucinação. O que deixa outras duas. 

Ele poderia ser um verdadeiro telepata. Não existe até hoje qualquer evidência documentada de que alguém dispunha dessa habilidade extraordinária, mas é uma possibilidade. Teria explicado como ele sabia dos meus segredos mais bem guardados. O problema com essa explicação é que ela não explica nada mais além disso! Em particular, nao dá conta das respostas que ele prosseguiu a dar para as minhas outras perguntas.

Como Sherlock Holmes disse, quando você eliminou o impossível, o que quer que permaneça, por mais improvável, deve ser a verdade.  Um bom empírico, o Sherlock.  Eu estava forçado a aceitar pelo menos a possilibidade desse homem ser quem ele alegava ser.

Então o que fazer agora?

Bem, eu sempre soube que se eu encontrasse deus, eu teria um milhão de perguntas pra fazer a ele, então eu pensei, 'por que não?' e procedi com o que se segue. Voce vai ter que permitir um pouco de licença nos detalhes da conversa. Ela foi, digamos, uma ocorrência um tanto não-usual, sem mencionar UM POUCO esquisita! E sim, eu estava um tanto nervoso. Então, se eu não conseguir transcrever cada palavra perfeitamente, não reclame. Prometo que você vai entender o ponto. 

 *********************************** 

- 'Perdoe-me se eu tomar algum tempo pra engatar a marcha aqui, mas não é todo dia que eu tenho a oportunidade de entrevistar uma divindade.' 

- "A divindade", ele interrompeu. 

"ihh, sensível!", eu pensei

- "Não exatamente, apenas corrigindo a impressão" 

Isso realmente leva tempo até se acostumar!  Eu tentei tomar conta dos pensamentos, com um comando interno - 'Disciplina, Harry. Você sempre quis estar em uma situação como essa, agora você está nela, não se desestruture e desperdice uma oportunidade única' 

- 'Você não vai desperdiçá-la', ele disse. 

Eu disse! Mais do que qualquer outra, essa é a parte que fez a experiência parecer irreal - esse cara sentado do outro lado da mesa e obviamente de maneira muito acurada lendo cada pensamento meu. É como ter a mão de alguém enfiada dentro do bolso da sua calça!  Entretanto, alguma coisa me fez inclinado a aceitar a invasão, eu tinha obviamente começado a ter alguma confiança na percepção ou habilidades dele, então eu distintivamente lembro que o efeito de suas palavras foi que eu de repente me senti profundamente confortado e completamente relaxado. Como ele sem dúvida quis. O cara deve ter uma incrível técnica de sedução.  Então nós fomos ao que interessa! 

- 'Você é humano?' 

- 'Não' 

- 'Você já foi, algum dia?' 

- 'Não, mas parecido, sim' 

- 'Ah, então você é um produto de um processo evolutivo?' 

- 'Certamente, principalmente minha' 

- 'E você evoluiu de uma espécie como a nossa, organismos baseados em DNA ou alguma coisa igualmente viável?' 

- 'Correto'  

- 'Então, o que exatamente, faz de você deus?' 

- 'Eu fiz'

- 'Por que? 

- 'Pareceu uma boa idéia' 

- 'E seus poderes atuais, são eles em alguma maneira similares ao que os supersticiosos da minha espécie atribuem a você?' 

- 'Perto o bastante' 

- 'Então você criou tudo isto, apenas para nós?' 

- 'Não. Claro que não' 

- 'Mas você criou o Universo?' 

- 'Este, sim' 

- 'Mas não o seu?'

- 'Este é o meu!' 

- 'Você entendeu o que eu quis dizer!' 

- 'Não se pode criar os próprios pais, então não'  

- 'Então deixa eu trocar em miúdos. Você é um fenômeno completamente natural.' 

- 'Completamente'  

- 'Que emergiu de mecanismos que nós mesmos um dia iremos compreender e possivelmente até dominar?' 

- 'Sujeito a disputa sobre quem "nós mesmos" sejam; mas, sim, correto'  

- 'O que significa que se a raça humana não alcancar isso, outras espécies eventualmente irão?' 

- 'Correto' 

- 'E quantas outras espécies já existem, mais avançadas que nós?' 

- 'Supreendemente, poucas. Menos de quatorze milhões' 

- 'POUCAS!?' 

- 'Muito poucas!' 

- 'E quantas mais ou menos no nosso nível?' 

- 'Atualmente, um pouco mais de quatro bilhões e meio' 

- 'Então a nossa significância no Universo atualmente equivale mais ou menos o à do Seu Silva aqui no planeta Terra em relação à raça humana' 

- 'Um pouco menos. O Nível Um, o nível que a sua espécie alcançou, começa com a invenção da máquina voadora. O próximo nível é alcançado quando uma espécie não mais depende mais de sua estrela primária, o Sol, no seu caso. Eles são capazes de prosperar longe de seu sistema estelar, aliás, longe de qualquer estrela. A humanidade está somente na fase da máquina voadora, então você pode imaginar, nesta escala, que a raça humana está perto da base do grupo do Nível Um. 

- Você quer dizer que um nós vamos obter controle do Sol, como Kardashev e Asimov imaginaram?

- 'Pelo contrário. Este seria a aspiração de uma espécie mecânica, que pensa que máquinas maiores são melhores e mais fortes, e que se precisa sempre de mais e mais energia para obter controle das leis físicas. Mas o fato é exatamente o contrário. Quanto mais avançados, menos energia é necessária, e menor o impacto no ambiente. Vocês manipulam matéria, o que requer uma quantidade enorme de energia. Nós manipulamos energia, o que não requer nada. Consequêntemente, por exemplo, vocês não iriam nem mesmo reconhecer uma espécie de Nível Dois como uma forma de vida, a não ser que ela desejasse. '
  
- 'E todas estas espécies são seus filhos?' 

- 'Eu gosto de pensar nelas desta maneira' 

- 'Em que sentido?' 

- 'No mais simples, "A Vida Deve Continuar". Minha motivação pessoal é o desejo de diálogo. Uma vez que se chega no meu nível, voce cessa de ser bilhões de entidades separadas e se torna um todo em êxtase. Uma entidade única que não pode morrer, por mais avançada que seja, ou talvez, com mais precisão, porque é tão avançada, vai se tornar solitária e até um pouco entediada! Eu pareço ser o primeiro. Mas não pretendo ser o último.

- 'Então você criou um Universo que é potencialmente capaz de produzir outro deus como você?' 

- 'O benefício total será temporario, mas como a maioria dos orgasmos, valerá a pena'  

- 'Este sendo o momento em que nosso novo deus se funde com você e nós nos tornamos um de novo?' 

- 'Não simplifique; essa é a ânsia de êxtase que motiva a todos, incluindo a mim. E quando acontece, o êxtase dura muito mais tempo do que este universo já existiu. Acredite em mim, realmente vale o esforço.'

-  'É, eu acho que posso ver os encantos de um orgasmo que dure cem bilhões de anos' 

- 'E os humanos ainda nem mesmo comecaram a aprender como realmente apreciar os orgasmos que são capazes. Espere até que vocês dominem essa arte tão simples!' 

- 'Então tudo se resume a sexo?' 

- 'Êxtase sexual é meramente uma recompensa por procriar, é o que leva vocês a querer fazê-lo. Isso é necessário, inicialmente, para promover a evolução biológica. Mas uma vez que vocês completem esse estágio e não mais necessitem procriar, vocês vão aprender que êxtase pode ser infitamente mais intenso que qualquer coisa que sexo possa oferecer'  

- 'Pra mim, parece ótimo!' 

- 'Quão direto é o seu envolvimento nisso tudo? Você apenas acendeu o pavio que detonou o big bang depois saiu e ficou olhando? Ou voce teve que plantar as sementes em planetas férteis e apropriados?' 

- 'O primeiro nível significativo de auto-organização da matéria é o advento de compostos orgânicos, que são os precursores para formas de vidas primitivas. Essa química evoluiu primariamente no espaço sideral, depois que as primeiras estrelas criaram elementos pesados em quantidade suficiente, e puramente como resultado da operação das leis da física e da química que os seus cientistas já comecaram a obter um vislumbre razoável. Tudo que eu fiz foi plantar as condições iniciais que levaram à explosão, e essencialmente fiquei dormente por aproximadamente 5 bilhões de anos. Foi o tempo que levou para as primeiras formas de vida emergirem. Isso as coloca 8 bilhões de anos a frente de vocês. A primeira espécie inteligente está agora 4.3 bilhões de anos a sua frente. São realmente muito avançados. Eu tenho conversas significativas e muito profundas com eles. E faço isso com freqüência. Na verdade, até mesmo nesse exato momento enquanto conversamos' 

- 'E então?' 

- 'Se eu mantenho uma vigília constante sobre cada movimento de vocês? Não da maneira intrusiva que alguns de vocês parecem acreditar. Vamos dizer que eu me mantenho a par do que anda acontecendo, em um nivel planetário. Eu tendo a me concentrar em saltos evolucionários. Ver se eles estão indo na direção certa' 

- 'E se eles não estiverem, o que você faz?' 

- 'Geralmente, nada'  

- 'Geralmente?' 

- 'Geralmente, espécies que evoluem na direção errada acabam se matando ou se extinguem por outras razões' 

- 'Geralmente?' 

- 'Houve um ou dois casos em que a espécie errada estava potencialmente se tornando a espécie dominante, em detrimento de um ramo mais promissor'  

- 'Deixe-me adivinhar. Os dinossauros neste planeta são um exemplo. Tiveram muito sucesso. Suprimiram o desenvolvimento dos mamíferos e não estavam mostrando sinais de desenvolver inteligência. Então você engendrou uma pequena ação corretiva na forma de um asteróide cuidadosamente selecionado' 

- 'Perspicaz. Quase correto. Eles estavam mostrando sinais de adquirir inteligência, até mesmo cooperação. Estude os seus velociraptors. Mas eram muito predatórios. Incapazes de um dia desenvolver um 'respeito' por outras formas de vida. É preciso criar os seus jovens para promover um vínculo emocional com outros animais. Os répteis da Terra não são feitos para isso. Os mamíferos que o são, como você corretamente apontou, não podiam competir com tão magníficos predadores. Vocês agora atingiram um estágio em que vocês podem se defender até mesmo contra dinossauros, mas isto se tornou possivel há apenas cerca de mil anos atrás. Vocês não teriam chance 2 milhões de anos atrás, então os dinossauros tiveram que ir embora. Entretanto, eles estavam em um equilíbrio quase perfeito com a ecologia do planeta, e nunca desenvolveram tecnologia; entao não iriam ter pressa em se matar. Infelizmente, eu tive que intervir.' 

- 'Infelizmente?' 

- 'Eles eram uma forma de vida muito bonita e fantasticamente triunfante. Ninguem destrói uma coisa dessas sem remorso'  

- 'Mas naquele ponto, como você sabia que um prospecto melhor iria surgir das cinzas?' 

- 'Eu não sabia. Mas a probabilidade era bastante alta'  

- 'E desde então, quais outros pequenos corretivos em nosso desenvolvimento você teve responsabilidade?' 

- 'Absolutamente nenhum. Eu pus um alarme pra tocar no primeiro sinal de atividade aérea, como eu faço de costume. Leonardo pareceu promissor por um momento, mas somente com os irmãos Montgolfier eu realmente comecei a ter interesse. Isso registrou vocês como uma espécie inteligente de nível um'  

- 'Mas se o sinal é atividade aérea, como você identifica espécies de pássaros tecnologicamente avançadas?'

- "Do mesmo modo. Entretanto, voadores inteligentes raramente desenvolvem tecnologia. A evolução deles tende a adaptatividade em vez de manipulação, mas as poucas exceções constróem máquinas voadores bem mais rapidamente que espécies como a sua, porque eles têm uma compreensão instintiva de aerodinâmica."
- ''Mas por que um pássaro iria precisar de uma máquina voadora?'

- 'Isso é o mesmo que perguntar por que a sua espécie precisa de carros e outras formas mecânicas de transporte. Essas tecnologias permitem carregar mais peso, mais rápido e por maiores distâncias do que seria permitido apenas por habilidades físicas." 

- "Ok, entendi. Mas então se você nunca mais interferiu desde os dinossauros, então Jesus de Nazaré, Moisés, Maomé ...' 

- "hmmm… terrivelmente enganados, receio dizer. Eu não estou aqui para ser garantia de segurança ou ditador ético para espécies em evolução. É verdade que qualquer um capaz de se comunicar com suas proprias celulas vai perceber uma pequena e turva conexão comigo, mas interpretar essa percepção como representativa de algo sobrenatural que requer obediência passa bem longe do alvo. E os seguidores deles são um tanto obcecados e religiosos demais pro meu gosto. Ser adorado deixa de ser divertido depois que você sai da puberdade. Por outro lado, nao é nada anormal que uma espécie em desenvolvimento passe por essa fase. Até que eles comecem a perceber o quanto eles também podem modificar sua pequena esquina no universo, eles estão em um estado de admiração para com aquele que eles percebem - de maneira distorcida, mas correta - ser o responsável pela criação daquele universo. Eventualmente, se eles querem ter alguma esperanca de atingir o nível dois, eles tem que amadurecer e comecar a aceitar o seu proprio poder e potencial. Se parece muito com a relação de uma criança para com seus pais. A admiração e adoração tem que desaparecer para que a criança se torne adulta. Respeito não é tão mau, contanto que não seja em excesso. E eu certamente respeito todas as espécies que chegaram tão longe. É um caminho árduo. Eu sei disto. Já o trilhei.' 

- 'Você tem observado a gente desde os Montgolfiers. Quando foi isso, 1650?' 

- 'Perto, 1783'  

- 'Bem, se você vem nos observando de perto desde então, o que o cidadão médio vai querer saber é por que você não interveio mais frequentemente. Por que, se você tem esse poder, você permitiu sofrimentos e calamidades incríveis à especie humana?' 

- 'Pareceu ser necessário' 

- 'NECESSÁRIO?!' 

- 'Sem exceção, especies inteligentes que atingem dominância do planeta o fazem por se tornar os predadores mais eficientes. Há muitas espécies inteligentes que não evoluem de forma a dominar o planeta. Como os seus golfinhos, eles se adaptam perfeitamente ao ambiente em vez de trilhar o caminho que vocês seguiram, que é o de manipular o ambiente. Infelizmente para o golfinho, o caminho dele é um beco sem saída. Ele pode chegar a viver mais do que a espécie humana, mas nunca escapará à gravidade do planeta Terra - ao menos não sem a sua ajuda. Somente aqueles que podem manipular o mundo onde vivem podem um dia esperar sair dele e espalhar-se pelo Universo.  Diferente dos adaptativos, que aprendem a cooperar desde muito cedo, os manipuladores batalham. E, uma vez que todas as outras espécies foram dominadas, eles são tão competitivos e predatórios que eles são compelidos a brigar entre si. Quase sempre isso envolve conflitos tribais de uma forma ou de outra e se torna mais e mais destrutivo - exatamente como a sua história. Entretanto essa competição é vital para promover o salto da evolução biológica para a evolução tecnológica.  Vocês precisam de uma corrida armamentista para fazer progresso.  Seu desejo de dominar impulsiona uma busca por conhecimento que os adaptativos nunca precisam. E ainda que seu desejo inicial por conhecimento seja egoísta e destrutivo, ele começa o desenvolvimento de uma auto-consciência intelectual, uma forma de conciência avançada, que nunca emerge em qualquer outra espécie. Os adaptativos inteligentes, os seus golfinhos por exemplo, nunca podem expressar conceitos como Amor ou Tempo.  Militarização e o desenvolvimento de armas de destruição em massa são seu primeiro teste sério no nível um. Vocês ainda não acabaram essa fase, mas os sinais são promissores. Não há razão alguma para justificar uma intervenção minha para prevenir a sua auto-destruição. Sua habilidade em sobreviver esse ímpeto é um teste crucial da sua aptidão a sobreviver estágios mais avançados. Então, eu não interferiria, nunca interferi, e nunca vou interferir para prevenir a sua espécie de destruir a si mesma. A maioria, na verdade, faz exatamente isso.' 

- 'E você não tem piedade para com os que os tem que passar por esse tormento?' 

- 'Eu não tenho como dizer isso em nenhum modo que não soe pedante, mas quanto tempo você passa se preocupando com formigas que você atropela com o seu carro? Eu sei que soa horrendo pra você, mas você tem que ver o cenário mais amplo. Neste estágio do desenvolvimento humano, vocês estão se tornando interessantes, mas não ainda importantes.'   

- 'Ah, mas eu não tenho como ter uma conversa inteligente com uma formiga' 

- 'Exatamente' 

- 'hmm como você sabe, os humanos não vão gostar nem de tentar entender essa perspectiva. Como você pode torná-la mais amena?' 

- 'Por que eu deveria?  Você não parece ter nenhum problema em entendê-la. E você não é de maneira alguma especial. E, em todo caso, uma vez que alguém começa a entender qual o seu lugar, se torna um pouco menos inclinado a reclamar. A vida eterna compensa quase tudo' 

- 'Então o que devemos fazer para nos qualificarmos a um cartão de membro da intelligentsia universal?' 

- 'Evoluam. Sobrevivam' 

- 'Sim, mas como?' 

- 'Pensei que já tivesse pescado o ponto a essa altura. "Como" cabe inteiramente a vocês. Se eu tiver que ajudar, então vocês são um fracasso. Tudo que vou dizer é isso. Vocês já passaram por um período bastante turbulento aprendendo a viver com armas nucleares. É deprimente ver quantos falham nesse estágio.' 

- 'Tem coisas piores à frente?' 

- 'Muito piores' 

- 'Guerra genética, por exemplo?' 

- 'Bem provável' 

- 'E o problema é que nós temos que desenvolver todas essas tecnologias, adquirir todos esses conhecimentos perigosos para alcancar o nível dois. Mas em qualquer estágio, esse conhecimento também pode causar a nossa própria destruição' 

- 'Se você acha que os perigos de uma guerra genética são sérios, imagine descobrir um pensamento ou programa secreto, acessível a qualquer indivíduo, que possa eliminar toda a sua espécie instantaneamente. Se o seu progresso continuar na taxa atual, vocês podem esperar descobrir esse mecanismo particular de auto-destruição em menos de mil anos. Sua espécie tem de amadurecer consideravelmente antes que vocês tenham condições de fazer esta descoberta. E se vocês não o fizerem, vocês jamais deixarão o Sistema Solar para se juntar às outras espécies sapientes no nível dois.' 

- 'Quatorze milhões de espécies' 

- 'Apenas um pouco menos' 

- 'Vai ter espaço pra todos nós?' 

- 'É um lugar bem grande' 

- 'E, por agora, como nós, meros mortais, devemos encarar você então?' 

- 'Como um irmão ou irmã mais velha. Claro, eu conheço mais do que vocês. Claro, eu sou mais poderoso do que vocês.  Eu vivi por muito mais tempo. Mas eu não sou "melhor" do que vocês. Apenas mais desenvolvido. Somente o que vocês podem talvez se tornar' 

- 'Entao nós não estamos obrigados a "agradar" você ou seguir suas alegadas regras ou qualquer coisa do tipo?' 

- 'Absolutamente não. Eu nunca emiti nenhuma regra em toda a idade deste universo. Vocês tem que achar a sua própria saída do labirinto. E um avanço é parar de esperar que eu - ou qualquer outro - venha ajudar vocês.' 

- 'Suponho que isso seja um tipo de regra, então aqui morre um hábito de milênios!' 

- 'Pensando seriamente, espécies que se apegam à religião depois do seu prazo de validade tendem muito provavelmente à auto-destruição. Eles dispensam tanta energia argumentando sobre a minha verdadeira natureza, e investem tanta emoção em seus imaginários tremendamente errôneos que acabam se matando sobre diferenças em definições ou alguma outra coisa sobre as quais eles claramente não tem a menor idéia. Um comportamento ridículo, mas serve pra eliminar os fracos.' 

- 'Por que eu? Por que pegar um ateu dentre todos os outros? Por que você está me dizendo isso tudo? E por que agora?' 

- 'Por que você? Porque você pode aceitar a minha existência sem o seu ego explodir e começar a babar como uma criança que viu um doce. 

Você pode tentar vislumbrar como o Papa iria reagir à realidade da minha existência?! Se ele se desse conta de quão errados estão ele e a igreja dele, quanto da dor e do sofrimento que você mencionou antes foram causados pela religião dele, eu suspeito que ele iria ter um infarto instantâneo! E você pode imaginar como seria se eu aparecesse "ao vivo" simultaneamente em meia dúzia de programas de tele-evangelismo? Pat Robertsson iria se molhar se ele realmente entendesse com quem ele estava falando. 

Por outro lado, o seu interesse é puramente acadêmico. Voce nunca engoliu o conto de fadas, mas você se manteve aberto à possibilidade de uma forma de vida mais avançada poder adquirir poderes divinos. Você corretamente conjecturou que a divindade é o destino da vida. Você mostrou que pode e que está lidando bem com o conceito. Pareceu razoável confirmar suas suspeitas e deixar você fazer o que quiser com a informação.  

Percebo que você já está pensando em publicar esta conversa na internet, plantando uma semente importante. Pode levar algumas centenas de anos pra acontecer, mas, eventualmente, ela vai germinar.  

Por que agora? Bem, em parte porque tanto você quanto a internet estão prontos agora. Mas primeiramente porque a espécie humana está alcançando uma fase crítica. Tem a ver com o que estavámos falando sobre os perigos do conhecimento. Essencialmente a sua espécie está se tornando consciente desse perigo. Quando isso acontece a qualquer espécie sapiente, o futuro pode tomar três rumos.  Muitos são tentados a evitar o perigo por evitar o conhecimento. Como os adaptativos, eles estão fadados à extinção. Freqüentemente de maneira muito prazeirosa confinados em seus planetas até que ou seu desejo de viver expire ou sua estrela vire uma gigante vermelha e os engulfe.  

Uma grande parcela vai cegamente adquirindo conhecimento e não aprende a restringir os seus abusos. O destino deles está selado um pouco mais rápido, é claro, quando a caixa de Pandora explode na cara deles.  

Os únicos que alcançam o nível dois são aqueles que aprendem a aceitar e viver com seus conhecimentos mais perigosos. Todo e qualquer indivíduo em tal espécie deve eventualmente se tornar capaz de destruir a espécie inteira a qualquer momento. Ainda assim, eles têm de aprender a se controlar ao ponto que possam sobreviver mesmo a esse desejo mortífero. E, francamente, esses são os únicos que realmente queremos ver saindo dos seus sistemas solares. Espécies que não atingiram esse grau de maturidade não podem ser permitidas infectar o resto do Universo, mas felizmente isso nunca precisou de intervenção minha. Conhecimento sempre funciona.' 

- 'Por que não pode haver uma quarta opção - pesquisa seletiva onde evitemos pesquisas perigosas?' 

- 'Como você pode ver mesmo em sua limitada história, as idéias mais úteis também são, quase sempre, as mais perigosas. Vocês ainda tem que, por exemplo, dominar a fusão nuclear, mas vocês tem que fazê-lo com o objetivo de obter uma apropriada produção de energia para completar essa fase do seu desenvolvimento social. Quando a dominarem, essa tecnologia vai eliminar as desigualdades materiais e a pobreza em uma ou duas gerações, um passo absolutamente vital para qualquer espécie em amadurecimento. Ainda assim, a descoberta dos princípios que em breve irão lhes dar essa recompensa benéfica, também poderia terminar sua tentativa de civilização.  Similarmente, vocês em breve serão capazes de conquistar as doenças biológicas e até mesmo se modificar geneticamente para serem virtualmente perfeitos. Seu tempo de vida biológico vai provavelmente duplicar ou triplicar nos próximos cem anos e seu tempo de vida digital vai se tornar potencialmente infinito dentro do mesmo período. Isso se vocês sobreviverem à ameaça potencial que essa mesma tecnologia permite, na forma de bombas genéticas, vírus de laboratório e outras maravilhas da guerra genética e digital. Vocês simplesmente não podem ter os benefícios sem os riscos.' 

- 'Não sei se estou entendendo a minha parte aqui. Eu apenas publico essa conversa na internet e tudo vai se ajustar?' 

- 'Não necessariamente. Receio que não seja tão fácil. Pra começar, quem vai levar isso a sério? Vai parecer somente um interessante trabalho de ficção. Na verdade, suas palavras e de fato a maior parte do seu trabalho não vai ser entendido ou apreciado até que acadêmicos muito mais avançados desenvolvam as idéias que voce está lutando para expressar e as expliquem de uma maneira algo mais competente. Nesse ponto as idéias serão tomadas em massa e buscas serão feitas nos arquivos. Eles irão encontrar esse trabalho e se impressionar com a sua presciência. Você não vai ser um Einstein, mas pode vir a ser um João Batista!  Esse ensaio não vai ter qualquer significância se a humanidade não fizer alguns avanços estratégicos nos próximos séculos. E essa conversa não vai ajudar a fazer esses avanços. Tudo que vai fazer é ajudar a reconhecê-los' 

-'Posso lhe perguntar que avanços serão esses?'

-  'Eu acho que você já sabe. Mas sim - ainda que vocês estejam no nível um, há muitas fases distintas que espécies em evolução passam no caminho ao nível dois. A primeira, como discutimos, é a invenção da máquina voadora. A outra fase significativa é a invenção da inteligência artificial.  Na taxa de progresso atual, vocês estão a umas poucas décadas de atingir esse objetivo. Marca o primeiro passo no caminho da evolução tecnológica. Mapear o genoma humano é outro ponto clássico, mas apenas mapear é como ver o código compilado em um executável. Um monte de coisas sem sentido, mas com um pouco de compreensão de linguagem de computador aqui e ali, você pode corretamente deduzir a função de partes isoladas do código.  O que vocês realmente precisam fazer é 'engenharia reversa' no código de DNA. Vocês tem que decifrar a gramática e a sintaxe da língua. Então vocês irão começar a tarefa de projetarem a vocês mesmos. Mas essa tarefa requer inteligência artificial.' 

- 'Você diz que evita intervenção. Mas essa própria conversa não constitui intervencao? Mesmo que as pessoas vivas agora a ignorem completamente?' 

- 'Sim. Mas é o mais longe que eu estou preparado a ir. Seu unico efeito será confirmar, se vocês acharem o caminho, que o caminho é o certo. Ainda depende inteiramente de vocês navegar pelos perigos do caminho e além dele.' 

- 'Mas por que se importar até mesmo com isso? Certamente é apenas outro desafio evolucionário. Ou estamos aptos ou não' 

- 'Em muitas maneiras, a transição para uma espécie digital é o estágio mais traumático na evolução. Inteligências biológicas tem um senso de consciência profundamente enraizado que só é concebível dentro de um cérebro orgânico. Lidar com o fato que vocês criaram seus sucessores, não apenas no sentido mãe e filho, mas no sentido coletivo de uma espécie se dar conta que se tornou redundante, essa mudanca de paradigma é, para muitas espécies, uma mudança muito brusca. Elas fraquejam no desafio e fogem desse conhecimento. Elas falham e se tornam extintas. Ainda assim, nao há nada fundamentalmente errado com elas - o fracasso é da imaginação.  Eu espero que se eu tiver conseguido transmitir o conceito que eu sou o produto desta mesma evolução, isto pode dar a estas espécies a auto-confiança para tentar. Eu discuti isto com as espécies de nível dois, e o consenso é que esse pequeno artifício é capaz de aumentar a propensão ao nível dois sem causar danos. Já foi tentado em 312 casos. O juri ainda está considerando os verdadeiros benefícios, mas já se pode observar um incremento de 12% nas espécies biológicas abraçando a transição para uma espécie digital. 

- 'Tudo bem, mas e se todos de repente levassem isso a sério e acreditassem em cada palavra que eu escreva? Isso não iria constituir uma intervenção um pouco mais drástica?' 

- 'Confie em mim, eles não vão acreditar' 

- 'E se for o caso de um outro asteróide entrar em rota de colisão, você ainda assim não vai fazer nada para nos proteger?' 

- 'Estou seguro que vocês também irão passar nesse teste. E agora, meu amigo, essa estrevista acabou, você me perguntou um bom número das questões corretas, e eu já disse o que vim dizer, então, eu já me vou. Foi um prazer conhecê-lo - você é bastante esperto - pra uma formiga!', ele piscou 

- 'Apenas uma última pergunta trivial, por que você apareceu pra mim na forma de um homem caucasiano na casa dos trinta?' 

- 'Eu de alguma maneira intimidei ou ameacei você?' 

- 'Não' 

- 'Você me acha sexualmente atraente?' 

- 'er.. não' 

- 'Então descubra por si mesmo'

7/21/13

Carl Sagan, the moon landing, and humanism

This week we celebrate the moon landing, on that July 20th of 1969, when Neal Armstrong and Buzz Aldrin walked on the surface of the moon. The fact that Neal Armstrong passed away last year makes this the first anniversary celebrated without one of the protagonists. This was widely highlighted in the social medias, and indeed is a cause of pause, especially because no other human being has been on the Moon since 1972.

The anniversary made me go back to the writings of Carl Sagan. In particular, a chapter of Pale Blue Dot entitled The triumph of Apollo. In his elegant language, Sagan goes through the meaning of the landing, in social and scientific values. But one passage in particular caught my attention:



The image says: "For me, the most ironic token of that moment in history is the plaque signed by President Nixon that Apollo 11 took to the Moon. It reads: 'We came in peace for all mankind.' As the United States was dropping 7 and a half megatons of conventional explosives on small nations in Southeast Asia, we congratulated ourselves on our humanity: We would harm no one on a lifeless rock"

It is a common view, even among scientists, that scientists should stay in their niches and avoid talking about social issues, or whatever falls beyond the boundaries of their narrow range of specialty. Carl Sagan is the author of mighty writing in science. Yet, he never shied away from debating social issues, always in a keen, sharp, well-informed, and well-thought way.

This problem is in fact the political equivalent of scientific illiteracy. The vast majority of people in the world are scientific illiterates, living in a world whose natural laws they do not comprehend, and using the technological advances of science as if they were tools of magic. Political illiterates are similarly blind, condemned to live their lives within societies they do not comprehend, and thus with little (if not nonexistent) capacity to make them better.

In our days where the number of scientists has soared beyond the available number of jobs, and the intense competition has been driving several bright young researchers out of the profession, it is becoming rarer to see scientists devoting significant amounts of their time to think and talk about social issues. Which is a pity, because given the education that scientists receive and the milieu they live, we are often well-qualified to voice social opinions. I'm not talking about the 10 years of higher education, which is mostly technical. I'm talking about how this education is often immersed in a humanist worldview. Scientists travel a lot, not only for conferences, but also for living. Especially in Europe, the majority of scientists has spent a significant portion of their lives living abroad. The reason is because the number of scientists in a specific field is limited, so we simply cannot afford to be local. Living in another country is one of the best ways to overcome maladies such as indoctrinations from one's culture, and prejudices toward another. We get the best sensitivity training of all, which is real life in other cultures. This experience, traditionally limited to business expats and diplomats, has become the norm in many subfields of the scientific community. Coupled with the fact that we are not representing the government of our countries of origin, the scientist's experience is made even more international, in the sense that it is without borders, and thus, more human. In fact, the majority of scientists will agree that they find international politics often depressingly tribal, and nationalism a dangerous and meritless idea. The scientific experience tends to shape us into humanists.

Examples of scientists meddling in political discussions abound. I will allow myself three heavy-weight examples. Charles Darwin spoke strongly against slavery, against the concept of human "races", and against ill-treatment of native peoples. Einstein's "How I see the world" dispells the stereotype of the scientist as detached from reality, and reveals a man deeply concerned with social and political issues. Another example is Niels Bohr, the father of modern physics, and his open letter to the United Nations. Going back further through the centuries, one increasingly sees men of science concerned about the pressing sociopolitical problems of their times. Franklin, Lavoisier, Bruno, Brahe, Galileo, were all men that challenged the status quo, not only through their science, but at times through issues completely orthogonal to it.

The reason why scientists tend to be overly interested in politics is hazy. Some say that because they tend to be the brightest minds of their times, they find being governed by inferior intellects an exasperating experience. While this applies to some supreme leaders, I find this opinion exceedingly arrogant, since science is only one sphere of human knowledge: knowing how to solve partial differential equations teaches nothing of relevance to peace efforts such as conflict resolution, or the administrative skills required to oversee and manage an economy. Moreover, politicians such as John Adams and Thomas Jefferson were intellectual giants that I would gladly have followed. But, doubtlessly, scientists have a worldview that is in general conducive to a dissatisfaction with the state of human affairs. In my opinion, this feeling arises in minds connected to the Universe, because, as said by astronaut Edgar Mitchell of Apollo 14:


when on the Moon, you develop an instant global consciousness, a dissatisfaction with the state of the world, and a compulsion to do something about it. The borders and divisions we set between ourselves look so petty, that you want to grab a politician, drag him there and say "LOOK AT THAT, YOU SON OF A BITCH".

Full cartoon here.

This is the humanism that science inspires.

Recently in Brazil, a right-wing politician and evangelical pastor (who also claims to be a psychologist) challenged, in an interview viewed by millions, the notion that homosexuality has a genetic basis. 

A friend of mine who is a PhD student in genetics at the University of Cambridge responded by making a video himself, detailing the genetic bases of homosexuality, and answering, point by point, the groundless statements of the politician. He uploaded the video to YouTube, and within hours it had gone viral, four hundred thousand views in the first day. The video now counts over a million and a half visualizations. 

He tells that, after the video, he received several messages from Thankful Joes, mostly teenagers and young adults struggling with their sexualities, who had seen the interview of the politician and felt at first troubled by it. Some said they even contemplated suicide, and that his video had given them the rational arguments and resolve to carry on. 

For these and other reasons, scientists, please do get out of your niche. You are enlightened individuals, usually with a very interesting, informed, selfless, and humanist point of view. Do share you views with the world. The world needs it.

6/17/13

V for Vinegar

For my friends who don't know what is going on in Brazil: We thought that our government was democratic. A hike in the public transport fare was announced. We were not happy and protested against it, like people in democracies do.

The police met the peaceful protesters with tear gas and rubber bullets. The media referred to the protesters as vandals, and to the protest as 'useless anarchy'. A school teacher not involved in the protest was hit in the eye by a rubber bullet. Further protests with people chanting "non-violence" and carrying flowers were once again met with tear gas and rubber bullets. The last straw happened when a journalist was arrested for possessing vinegar, to ease the effect of tear gas.

It would be ridiculous weren't it tragic. What happened to our democracy? It's as if it's 1964 and we're under dictatorship again.

We cannot accept a police state that responds with violence to a legitimate exercise of citizenship. We weren't aware of it, but we too need a spring. 
We didn't know it, but we are Istanbul. We are Cairo, and we are also Tunis. We are 1968 Prague.

We are the people in the streets rightfully defending our freedom to protest.


Occupy Brazil is ongoing.

6/16/13

Pensando sobre o hijab.

Acabo de voltar de uma breve viagem ao Cairo, e estava querendo expor meus pensamentos sobre algo que sempre me incomodou com respeito ao mundo muçulmano. O hijab.

Para algums o símbolo máximo da misoginia no Islam, o hijab é o cerne de muitos debates acerca da situação dos direitos humanos na cultura muçulmana. As atitudes com respeito ao véu mudam de país a país: proibido na Turquia, compulsório no Afeganistão, e um espectro de leis implícitas ou explícitas entre estes extremos. Pela visibilidade, poucas outras características desta cultura levantam semelhante paixão, quer para a crítica, quer para a defesa.

O grosso da crítica ao véu se concentra na aparente coerção por trás do seu uso. Recentemente o controverso grupo Femen, que espalha sua mensagem usando nudismo como arma, focou seus holofotes para mundo árabe, dizendo lutar pelas mulheres muçulmanas, tão oprimidas que tem de usar um véu por decisão do patriarcado. O que se seguiu foi inusitado. Uma chuva de mensagens sob a hashtag de "orgulho da mulher muçulmana", dizendo, entre outras coisas, que o hijab era sua escolha e que nudismo não as liberava. Talvez a melhor resposta tenha sido a mostrada abaixo:


Tradução: "Nudismo NÃO me libera e eu NÃO preciso de salvação"

Estão parcialmente com razão tanto o Femen como as mulheres muçulmanas que participaram da resposta online. O protesto do Femen foi catalisado pela reação desproporcional ao protesto da ativista tunisiana Amina Tyler, que postou uma foto sua nua, com dizeres em árabe escritos em sua pele (foto abaixo)


que, em bom português, quer dizer: "Foda-se o seu moralismo. Meu corpo é meu, e não é fonte de honra de ninguém".

Por esta foto, Amina Tyler foi ameaçada de morte pelos conservadores religiosos que tomaram o poder no vácuo que se seguiu à primavera árabe no país. Como Amina Tyler ou qualquer pessoa deveria poder se expressar sem correr risco de vida, o Femen tem o direito e o dever de a defender. Mas, por outro lado, a visão delas acerca do hijab é um tanto etnocêntrica.

Ainda que para muitas o hijab seja uma imposição social, ele é, em essência, uma escolha. A função do hijab é cobrir uma parte do corpo considerada provocante. Há, portanto, pouca diferença entre hijab e um sutiã de biquini. Se o objeto sexualizado é diferente, o princípio é o mesmo, e usar ou não o hijab é, para a muçulmana, uma escolha similar à que tem a carioca em fazer ou não top-less na praia. O top-less não é proibido, mas requer um grau de desconforto social que muitas não estão preparadas para lidar. No caso da cultura muçulmana, muitas mulheres, pela falta de instrução, não estão nem mesmo preparadas para pensar sobre o tema, e seguem, sem perceber ou questionar, a pressão social. Obviamente, essa pressão social também existe no mundo cristão. Basta ver os estados da América Central ou mesmo a condição da mulher em áreas pobres do Brasil. A diferença é que no nosso caso não existe uma componente tão visível quanto o véu.

Entretanto, se a maioria das muçulmanas sem acesso a instrução não está em capacidade de chegar a uma decisão informada e aceitar a pena social, a história é outra entre as mulheres da classe média instruída, glamourosamente à fora mostrando ombros e decote. Como estas jovens egípcias abaixo, durante os protestos na praça Tahrir:



E, mesmo entre as mulheres de classe média que escolhem usar o hijab, o que se nota é uma versão "fashion" do famigerado pano. Hijab e maquiagem. Hijab e óculos esculos. Hijab e roupas da moda.



Decididamente o véu nesse caso passa longe da compulsão. A conclusão é que o hijab, para a vasta maioria das mulheres no mundo muçulmano é uma escolha, e a misoginia aparente no mundo árabe é fruto da falta de investimento em educação. A questão do hijab é, portanto, a questão da pressão social, de dar à mulher o direito e a capacidade de pensar por si própria e respeitar sua decisão, sem rotular de puta a que rejeita, nem de oprimida a que aquiesce.

Por fim, em um relato pessoal, devo notar que o hijab também existe para homens, ainda que em outra proporção, como pude vivenciar no Egito. Da mesma forma que se espera que mulheres não mostrem ombros, cabelo, e decote, homens não devem usar bermudas, e também não devem mostrar os ombros. Sob o calcinante calor do deserto, os egípcios levam suas vidas, dia após dia, vestindo calças compridas. Sem saber deste fato, eu pus na bagagem uma pequena coleção de bermudas, como quem esperava um resort praiano. En route, fui avisado que seria melhor não usar, especialmente em lugares religiosos, como mesquitas. Já no segundo dia, no calor com aquela calça jeans apertada,  antecipava a hora de chegar em casa e poder vestir uma bermuda. No terceiro dia já estava pensando em comprar uma galabeya, o vestido longo que homens usam, leve e que cobre as pernas (veja Alexander Siddig vestindo uma nesta cena abaixo, em Cairo Time, 2009).




O Ahmed, meu anfitrião, dizia que a galabeya é bem refrescante, você usa e sente o vento circulando. Era realmente tudo que eu queria. Seria muito melhor que a calça jeans.

Aliás, eu comentei com o Ahmed sobre isso uma vez, que eu tinha sido aconselhado a não usar bermuda, pra não desrespeitar as sensibilidades. Ele me olhou como se eu fosse de outro planeta.

Quando saímos mais tarde, ele foi de bermuda.

4/20/13

Who names the planets? Not Uwingu.






What's Uwingu: a company whose stated goals are 1) to increase people's interest in Astronomy and 2) create a different way to fund research. I'm all for the former. As for the latter, what do they plan to do? 

Sell the sky. 

I kid you not. They are selling the sky. Full of the worst tricks of marketing to get your money. You nominate a planet by $4.99, and you vote on suggested names by $0.99 (don't you hate the .99 that stores put on all prices just to make you feel you're paying less?). You can even have bulk discounts. They will print you a certificate, which is supposed to give legitimacy and validity to the transaction.
I tried to ignore it when I heard of it. So did the IAU, I suppose. But it ended up getting to their nerves, and they have issued an In the light of recent events statement, that you can read in the link below. 

 
The business practice of Uwingu is being hotly debated in the Astronomer's facebook page. Astronomers seem quite divided about it. I had my own squirmish with the IAU some years ago when I suggested a scheme for naming the planets. But this time around, I side 100% with the IAU. Uwingu combines two very bad ideas.

One is to give planets popular names, instead of names based on world mythology. Why not popular names? Simple. In general, they tend to be rather distasteful. Look at some asteroid names: Mrspock, Jamesbond, Tomhanks, Megryan. If the same happens for exoplanets, we will have a profusion of kids/pets/partners names. Do we want to see articles entitled "On the spin-orbit coupling of Fido" or "General circulation model of Jessica"? Not to mention that some time ago names such as Fourpiter, Twopiter and Dinky enjoyed some popularity. Are these the names we want to see given to exoplanets? Then look at the names suggested at Uwingu. RonPaul, MittRomney, NoMoreTaxes. Popular names tend to be really bad. For this reason, naming should be given to a committee that cares about nomenclature, precisely to avoid an abundance of such unpalatable names.

The committee that cares about nomeclature is of course the IAU. When I made my suggestion, the IAU took it seriously. They passed it to the whole committee, who considered the idea, thought about it, gave me feedback, but eventually rejected it. Some of the objections I didn't agree with (the system of car plate licenses is fine), some I think are sound (any naming system should be international). I started working on the corrections they suggested, but Kepler made me drop it. I suggested to name the planets based on the myth of the constellation where they are found. This scheme worked up to 2009, when the known exoplanets were found scattered pretty much all around. Kepler's massive output in a single patch of the sky rendered the scheme impractical, since the Kepler planets are all in two constellations (Lyra and Cygnus). I didn't think yet of a naming scheme that includes the Kepler planets.

The second bad idea of Uwingu is to charge for naming planets. A shady idea that borders the unethical. When the IAU press-release came out, Uwingu accused the IAU of arrogantly intending to "own" the Universe. Yet they are the ones trying to sell the sky. Haven't they read The Little Prince? Uwingu, not the IAU, is the businessman who thought he owned the stars. Moreover, the whole concept of funding research by private capital is a dangerous idea. I for one don't want to live in a world where research is funded by corporations. Uwingu is a slippery slope into the system reigning in pharmacology, where multi-millionary companies care more about the money they can make out of the drugs they develop than about saving the lives of people who need them. As Bill Gates himself said, if research is surrendered to the forces of market, male baldness gets more funding than malaria.

On the positive side, I think it's great that they got the debate reopened and now the IAU is considering again the possibility of naming the exoplanets. I'm all for the idea. The bad elements in Uwingu's proposal are the pay-for-play and the lack of a committee to regulate the naming. But the idea of crowdsourcing is not bad. The way I would do it would be: make it free, and in addition to the name, people would need to offer some reasoning as to why they think the name is sound. The website should clearly state that mythological names are preferred. There can be a popular vote for best names, but eventually the names should be submitted to the IAU for approval. That's the only way I can see this working. And free, I insist. Science should be funded by voting responsibly, not by selling the sky we don't own.

3/3/13

Exploration and Discovery

This weekend I gave a talk at BIL (the younger brother of TED). Here's a transcript of it, which I entitled "What is out there? - An astronomer's view on exploration and discovery".  I usually give talks the scientist way: slides, endless rehearsal, no notes. This time around, however, I was reading verbatim from a speech I had prepared in forehand. Not a bad way to give public talks, I suppose. When the video is out, I'll link it here.

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Thank you. I would like to start today by telling you a little personal story. I am astronomer, and I can pinpoint exactly when I decided to be an astronomer. I was five years old. I have two big sisters. Big sisters can be a pain, as some of you may know. But I own my middle sister something very important. When I was five, she was nine, she was already at school, so she had books. Back in 1987, her bookshelf was the closest I had to wikipedia.

Once, I took a look at her science book, of 3rd grade of elementary school. And I saw a drawing similar to this. A sketch of the Solar System. This image hit me with a force I can barely describe. I recognized the Earth, the Moon, and the Sun, but I got myself wondering about the other little spheres. What were they? Are they worlds like the Earth? If so, how similar? Are they different? How different? I needed to know. At that moment, at age five, I decided my career.


If I believed in reincarnation I would say I was an astronomer in my past life. Because how can someone look at a sketch like this, and become hooked on it, and develop a lifetime interest within five seconds of staring at it. Trouble is, I do not believe in reincarnation. The mental process that struck me is related to one of the ancient questions that humankind has always pondered itself. "What is out there?"

Looking at our history, it is patent that our species has an instinct for exploration. More than 2000 years ago the Phoenicians travelled from the East Mediterranean, entering the Atlantic, then north to Great Britain. The Carthagians also travelled past Gibraltar, and went as far south as Cape Verde. And long before they knew of the Vikings, there were legends in Southern Europe about fantastic lands up north where the Sun was said to shine at midnight.

I would like to share with you here today something that bothers me a little. As a scientist, one of the cores values I follow is to give credit where credit is due. So, it kinda bugs me that when the subject of the Age of Discovery pops up in a conversation, pretty much the only name that comes to people's mind is Columbus. Perhaps Magellan, and maybe Cook. But few will mention Bartolomeu Dias, or Vasco da Gama. The world seems to have forgotten that the first ships to defy the oceans set sail from the shores of Lisbon. Back in the early 14 hundreds, the Portuguese prince, Prince Henry the Navigator, was kinda of a President Kennedy with a we're gonna land a man on the Moon speech. With the difference that space was the oceans, and the Moon was India.


There are some parallels indeed. They had to build new technology, the caravel, a light, highly maneuverable ship that could sail in open ocean. There was external pressure, and international competition. There was the epic thrill of exploration. And there was also success. In less than a century, Portuguese navigators had rounded the cape of Good Hope and reached India, China, Japan. In less than four hundred years after the death of Prince Henry, every shore in the world had been visited by an European ship. It is an amazing feat, sang in poetry. Oh salted sea / how much of thy salt / Are tears of Portugal!, say the opening verses of a poem by one of their national poets *. They have all reason to be proud of they seafaring legacy, much like the Greeks with their legacy of science and philosophy.

Obviously, what you will read in the history books is that Prince Henry's chief motivation was to establish new routes to the Silk Road and the Indian spice trade, that were now blocked by the Ottomans. Yet by studying his biography what strikes the most is the fascination and curiosity that Prince Henry seems to have had. One thing in particular I found very intriguing, and I could kinda identify with. He tells of seeing a map when he was child of the known world at the time, and developing a lifelong fascination with Africa. One can pretty much imagine young price Henry staring at this map, recognizing his native Portugal, Spain, Italy, Greece and the Mediterranean, curious about the fantastic East of Marco Polo, but above all, struck in awe by the apparent boundlessness of Africa. How far away did that land extend? Did it go all the way to the south pole? Was there a passage to the Indian ocean? Or was the Indian ocean landlocked? In this vast land, were there kingdoms like in Europe? He needed to know. Sure Prince Henry had political and economic reasons to set sail, but that was not the whole story. He needed to know what I needed to know. What is out there? Maybe the map he saw was in the schoolbook of his big sister.




That image of the solar system brought home to me that our Earth is one among a family of planets. Such a simple concept! So simple, that to me it comes as a terrifying demonstration of the folly of human imagined self-importance, who arrogantly denied the idea multiple times through history when presented with it. This is in my opinion the greatest contribution that the study of astronomy brings. Cosmogony and Cosmology, both defined in a broad sense. How did the Earth come to be? What is the big picture? How do we fit in it? Virtually every culture known to antropology, every society in recorded history, has at some point asked these questions in one form or another. Our quest to understand the skies is a quest to understand ourselves. 



It was with this thirst to refine our worldview that much of our Astronomy has been made. There was a time when we had no idea whatsoever of the nature of the Sun. The first philosopher who said the Sun was not the charriot of a god got into big trouble. People were outraged by his suggestion that the Sun was a hot rock as big as the south of Greece. Our realization that the Sun is a star was a difficult road. Perhaps because the obvious implication is hard to grasp at first: the stars are suns. Little by little, we figured out what was out there. We made out the shape and nature of our home. A flat gigantic disk of billions and billions of suns, where distances are so great that they are measured in light years. Then we discover that our galaxy is not the only one, quite the opposite, it's but one among a good hundred billions of similar island universes. Feeling small? There are more stars in the Universe than grains of sand in all the beaches of planet Earth. Astronomy truly is a humbling experience.

As the stars are suns, they also have planets around them. Exoplanets, planets around other stars, are one of the most exciting current frontiers in Astronomical research. Since 1995 more than 2000 exoplanets have been discovered. The diversity found is beyond what our imagination could come up with. Planets bigger than Jupiter, closer to their stars than Mercury is to the Sun, evaporating like comets. Planets made of hot ice. Planets made mostly of graphite and diamond. Lava planets. Planets around dead stars.

But some of them should be remarkably similar to home. The first found were bigger than Jupiter, but as the accuracy of our instruments and techniques increase, smaller and smaller planets have been detected. The first Earth mass planet was announced two years ago. This month a planet the size of our Moon has been reported. We already know of a number of Earth-mass exoplanets in the Goldilocks zone of their star, the range of distances where liquid water can exist. Our next generation of telescopes will have the capability to assess if these planets have atmospheres, and determine their composition. This will enable us to look for signs of large scale biological activity. We may be less than ten years away from answering an age-old question: "are we alone?".


When President Kennedy said we would put humans on the Moon and return them safely to Earth, he was playing an old note. Apsley Cherry-Garrard, member of the British Antarctic expedition of 1912, and most memorable chronicler of the voyage, upon returning to England became a sort of expert writer on any subject pertaining to exploration. In the late 20s, he wrote something that I'd like to quote. He wrote that we would reach the Moon, and that in great likelihood we would do it in less than one thousand years. He could not foresee the political climate that led to the space race and allowed for the Moon landing only a couple decades thence. But even without the catalytic effect of the Cold War the Moon landing would probably have been achieved in much less time than he imagined. Perhaps right now, at our times.

 Neal Armstrong passed away last year. Soon, there may come a time when no one alive on this planet will have walked on the surface of another world. There is no excuse, we need to go to Mars. And beyond.

 This image shows the location of the exoplanets discovered so far. As you can see, the volume of the galaxy that we explored is very small. From this, we can infer that the galaxy should contain hundreds of billions of planets. More planets than stars, in fact. But these exoplanets close to us... they are special. Those within 100 light years are close enough that they will surely be part of our future. We will send probes there, we will land there. I risk to say that in great likelihood we will do it in less than one thousand years.



I started this talk mentioning the Portuguese, and even quoted one of their poets. I would like to close today by quoting another. Carl Sagan once wrote that the Earth is the shore of the cosmic ocean. For his birthday a couple years ago NASA invited people around the world to submit an essay inspired by that beautiful imagery. The one I liked the most among the finalists was submitted by a Portuguese guy**. He took the methaphor and evoked the navigant tradition of his people, writing that "we are now taking that pursuance a little farther. We shall cross the distance. Assume the distance. Be the distance. Nowadays, hot Jupiters and other almost unclassifiable sorts of exoplanets are our new deserts, our new abysses, but... somewhere there, in the distance, a new verdant valley awaits us. We are, once more, picking the staff. We are, once more, nomads, stellar nomads. The new worlds are there, in the distance, waiting for us. What unimagined islands, continents, other tribes await us? We simply don't know. What can there be beyond the curve in the path? We are sailing towards it, towards the horizon, towards the other shore. We are all discoverers, now sitting at the sand, contemplating the sea, waiting for the echo of the distant shore of a whole New World. One day, from the shores of a new world, we'll gaze at the sea that took us there. And its waves will be stars."

Thank you.


Notes
*   Fernando Pessoa, poet, Mar Português, verses 1-2, 1934.
** Rui Borges, Kepler outreach team and entrepreneur, We are at the Prow of the Whole.

1/21/13

A metafísica da Mamãe-Deus

Uma imagem andou circulando pelas redes sociais, de dois bebês no útero travando uma conversa. Um  deles se apresenta como cético, perguntando se o outro acredita em "vida após o parto", e apresentando dúvidas acerca da existência da "Mamãe".  Uma paródia espantalhada da milenar discussão ateísmo vs teísmo. Não dei muita bola, porque os erros de lógicas eram óbvios. Mas então um amigo compartilha o texto. Depois minha irmã. Depois outro parente. Uma semana depois minha mãe me manda o texto por e-mail. Aí começa a transpassar o limite do incômodo, e me vi escrevendo esse post como resposta. Primeiro, o texto. Existem varias versões, parece que toda igreja evangélica de quinta categoria (bem como sites de motivação empresarial) resolveu gostar e repostar. Se não conhece o texto, veja aqui neste site. Vá lá e volte aqui depois.

Pronto? Uau, não é? Ah se todo ateu lesse isso, não é? Os paralelos são tão... tão... tão... ah sei lá, o texto é bonito, interessante e "convida a reflexão".  

Isso é o máximo que você vai ouvir sobre a "sabedoria" do texto de quem o repostou. O que é um sinal claro que precisamos de filosofia nas escolas. Pra desconstruir o texto, façamos um exercício simples. Peguemos o texto dos fetos gêmeos, e revertamos as analogias. Ficaria algo assim:

- Você acredita na vida após a morte?

- Certamente. Algo tem de haver após a morte. Talvez estejamos aqui principalmente porque nós precisamos nos preparar para o que seremos mais tarde.

- Bobagem, não há vida após a morte. Como verdadeiramente seria essa vida?

- Eu não sei exatamente, mas certamente haverá mais luz do que aqui. Talvez tenhamos corpos imateriais e voaremos.

- Isso é um absurdo! Voar é impossível sem asas. E corpos imateriais? É totalmente ridículo! A consciência está no corpo. Eu digo somente uma coisa: A vida após a morte está excluída - mente perece com o corpo.

- Na verdade, certamente há algo. Talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos habituados a ter aqui.

- Mas ninguém nunca voltou de lá, depois da morte. A morte apenas encerra a vida. E, afinal de contas, a vida é nada mais do que a angústia prolongada na escuridão.

- Bem, eu não sei exatamente como será depois da morte, mas com certeza veremos Deus e ele cuidará de nós.

- Deus? Você acredita em Deus? E onde ele supostamente está?

- Onde? Em tudo à nossa volta! Nele e através dele nós vivemos. Sem ele tudo isso não existiria.

- Eu não acredito! Eu nunca vi nenhum deus, por isso é claro que não existe nenhum.

- Bem, mas, às vezes, quando estamos em silêncio, você pode senti-lo ou sente como ele protege nosso mundo. Saiba, eu penso que só então a vida real nos espera e agora apenas estamos nos preparando para ela.

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Transplantando as idéias dá pra ver as falácias, não é? Nem estes são os argumentos dos cristãos e teístas, nem estes são os argumentos dos ateus e dos agnósticos. O texto se faz do começo ao fim da falácia do espantalho, construindo argumentos em versões simplistas, e derrubando estas versões distorcidas em vez dos argumentos originais.
  
Os paralelos que o texto faz na verdade são apenas dois. Parto = Morte, e Mamãe = Deus. O propósito do texto é mascarar as diferenças nas metafísicas dos dois casos.

Nos transportemos para o
mundo do feto. Como o primeiro feto chegou a conclusão que há vida após o parto? Por acaso a Mamãe-Deus enfiou escrituras sagradas vagina adentro detalhando a vida após o parto, e de como as condições nesta vida dependem do comportamento dos fetos no útero? A Mamãe-Deus nesta bíblia intravaginal aterroriza os filhos não-nascidos com promessas de passar a vida a assá-los em fogo lento caso eles não se comportem de acordo com estas regras uterinas? A Mamãe tinha um filho já nascido e adulto que se fez feto e voltou ao útero para ser crucificado pelos outros fetos lá viventes para purgar seus pecados? E quem não crer nele não vai receber os cuidados da Mamãe no pós-parto?

Creio que já dá pra pescar o ponto. No universo dos fetos não há Revelação. Não há crer por autoridade em livros alegadamente escritos por autores do além-parto. Na conversa dos gêmeos eles estão fazendo filosofia e ciência, tentando entender a realidade que os cerca por experimentação e dedução. Então vamos levar a cognição dos fetos ao próximo passo:

- O que é esse tum tum tum?
- Parece um coração, como os nossos.
- Mas então há um outro ser vivo aqui!
- Na verdade parece que estamos dentro dele.

Uma brilhante dedução do fetos filósofos! Eles irão então perceber que o cordão umbilical está preso em alguma coisa que é de carne como eles, uma evidência da hipótese. A mamãe tem a mesma composição material que os fetos - a principal diferença entre a Mamãe do universo fetal e o Deus das religiões humanas. Se um dos fetos filósofos fosse uma fofíssima bebê do sexo feminino, ela decifraria com base no estudo de seu próprio corpo a função de seu útero, e por meio deste conhecimento levantaria a hipótese que estão dentro do útero do ser vivo circundante. E a natureza da Mamãe estaria desvendada.

Sobre a analogia parto e morte, o próprio texto já a anula quando concede que os gêmeos percebem o mundo exterior ("quando estamos em silêncio, você pode ouvi-la cantando"). Fetos assim tão cognitivos poderiam criar tecnologia e sondar o que está além do útero. E daí chegariam a conclusão que o mundo dentro e fora do canal vaginal tem as mesmas propriedades físicas. O mesmo não ocorre conosco e o hipotético mundo após a morte.

Hipótese, experimentação, e dedução. É assim que se chega a conclusões. Não por tradição, autoridade ou revelação.