1/21/13

A metafísica da Mamãe-Deus

Uma imagem andou circulando pelas redes sociais, de dois bebês no útero travando uma conversa. Um  deles se apresenta como cético, perguntando se o outro acredita em "vida após o parto", e apresentando dúvidas acerca da existência da "Mamãe".  Uma paródia espantalhada da milenar discussão ateísmo vs teísmo. Não dei muita bola, porque os erros de lógicas eram óbvios. Mas então um amigo compartilha o texto. Depois minha irmã. Depois outro parente. Uma semana depois minha mãe me manda o texto por e-mail. Aí começa a transpassar o limite do incômodo, e me vi escrevendo esse post como resposta. Primeiro, o texto. Existem varias versões, parece que toda igreja evangélica de quinta categoria (bem como sites de motivação empresarial) resolveu gostar e repostar. Se não conhece o texto, veja aqui neste site. Vá lá e volte aqui depois.

Pronto? Uau, não é? Ah se todo ateu lesse isso, não é? Os paralelos são tão... tão... tão... ah sei lá, o texto é bonito, interessante e "convida a reflexão".  

Isso é o máximo que você vai ouvir sobre a "sabedoria" do texto de quem o repostou. O que é um sinal claro que precisamos de filosofia nas escolas. Pra desconstruir o texto, façamos um exercício simples. Peguemos o texto dos fetos gêmeos, e revertamos as analogias. Ficaria algo assim:

- Você acredita na vida após a morte?

- Certamente. Algo tem de haver após a morte. Talvez estejamos aqui principalmente porque nós precisamos nos preparar para o que seremos mais tarde.

- Bobagem, não há vida após a morte. Como verdadeiramente seria essa vida?

- Eu não sei exatamente, mas certamente haverá mais luz do que aqui. Talvez tenhamos corpos imateriais e voaremos.

- Isso é um absurdo! Voar é impossível sem asas. E corpos imateriais? É totalmente ridículo! A consciência está no corpo. Eu digo somente uma coisa: A vida após a morte está excluída - mente perece com o corpo.

- Na verdade, certamente há algo. Talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos habituados a ter aqui.

- Mas ninguém nunca voltou de lá, depois da morte. A morte apenas encerra a vida. E, afinal de contas, a vida é nada mais do que a angústia prolongada na escuridão.

- Bem, eu não sei exatamente como será depois da morte, mas com certeza veremos Deus e ele cuidará de nós.

- Deus? Você acredita em Deus? E onde ele supostamente está?

- Onde? Em tudo à nossa volta! Nele e através dele nós vivemos. Sem ele tudo isso não existiria.

- Eu não acredito! Eu nunca vi nenhum deus, por isso é claro que não existe nenhum.

- Bem, mas, às vezes, quando estamos em silêncio, você pode senti-lo ou sente como ele protege nosso mundo. Saiba, eu penso que só então a vida real nos espera e agora apenas estamos nos preparando para ela.

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Transplantando as idéias dá pra ver as falácias, não é? Nem estes são os argumentos dos cristãos e teístas, nem estes são os argumentos dos ateus e dos agnósticos. O texto se faz do começo ao fim da falácia do espantalho, construindo argumentos em versões simplistas, e derrubando estas versões distorcidas em vez dos argumentos originais.
  
Os paralelos que o texto faz na verdade são apenas dois. Parto = Morte, e Mamãe = Deus. O propósito do texto é mascarar as diferenças nas metafísicas dos dois casos.

Nos transportemos para o
mundo do feto. Como o primeiro feto chegou a conclusão que há vida após o parto? Por acaso a Mamãe-Deus enfiou escrituras sagradas vagina adentro detalhando a vida após o parto, e de como as condições nesta vida dependem do comportamento dos fetos no útero? A Mamãe-Deus nesta bíblia intravaginal aterroriza os filhos não-nascidos com promessas de passar a vida a assá-los em fogo lento caso eles não se comportem de acordo com estas regras uterinas? A Mamãe tinha um filho já nascido e adulto que se fez feto e voltou ao útero para ser crucificado pelos outros fetos lá viventes para purgar seus pecados? E quem não crer nele não vai receber os cuidados da Mamãe no pós-parto?

Creio que já dá pra pescar o ponto. No universo dos fetos não há Revelação. Não há crer por autoridade em livros alegadamente escritos por autores do além-parto. Na conversa dos gêmeos eles estão fazendo filosofia e ciência, tentando entender a realidade que os cerca por experimentação e dedução. Então vamos levar a cognição dos fetos ao próximo passo:

- O que é esse tum tum tum?
- Parece um coração, como os nossos.
- Mas então há um outro ser vivo aqui!
- Na verdade parece que estamos dentro dele.

Uma brilhante dedução do fetos filósofos! Eles irão então perceber que o cordão umbilical está preso em alguma coisa que é de carne como eles, uma evidência da hipótese. A mamãe tem a mesma composição material que os fetos - a principal diferença entre a Mamãe do universo fetal e o Deus das religiões humanas. Se um dos fetos filósofos fosse uma fofíssima bebê do sexo feminino, ela decifraria com base no estudo de seu próprio corpo a função de seu útero, e por meio deste conhecimento levantaria a hipótese que estão dentro do útero do ser vivo circundante. E a natureza da Mamãe estaria desvendada.

Sobre a analogia parto e morte, o próprio texto já a anula quando concede que os gêmeos percebem o mundo exterior ("quando estamos em silêncio, você pode ouvi-la cantando"). Fetos assim tão cognitivos poderiam criar tecnologia e sondar o que está além do útero. E daí chegariam a conclusão que o mundo dentro e fora do canal vaginal tem as mesmas propriedades físicas. O mesmo não ocorre conosco e o hipotético mundo após a morte.

Hipótese, experimentação, e dedução. É assim que se chega a conclusões. Não por tradição, autoridade ou revelação.

1/20/13

Sandy Hook, Gun Control, and appeal to moderation

Teacher: What is 17 plus 18?
Student A: 25.
Student B: No, it's 35.
Teacher: Ah, then the correct answer must be around 30.


Along these lines goes the logical fallacy of the argumentum ad temperantiam, or appeal to moderation. It's also known as the Englishman logical fallacy, meaning that British gentlemen are so prone to the middle ground approach that if fallacies were classified by countries, the ad temperantiam would doubtlessly fall in the English's camp. If two groups are arguing, one claiming 2+2=4 and the other 2+2=6, an Englishman would surely moderate the discussion by claiming 2+2=5 and denouncing both as extremists. 

I have seen the fallacy used this week by a Republican in favour of gun control. Her position was that gun control is usually advocated only by city dwellers, and that guns are actually useful in the countryside. A rabid racoon, a venomous snake, hunting, or the occasional armed home invader when the nearest police station is several tens of miles away and unable to answer the call promptly. 

My view evolved, after some debate, that gun ownership by citizens is a contradiction when we have police and army. We either have a state or we don't. Once conceded that guns have no place in urbia and suburbia, one is agreeing that the state works well there in that respect. That established, claiming that every farm and ranch must have a gun is to argue that rural areas are inherently anarchic or subanarchic, and therefore that state effectiveness in these areas is a hopeless utopia. 

This is instead an argument for strengthening the state to reach out better in rural areas, not to abolish it or to accept its shortcomings. Low population density is not an insurmountable problem. Increase the police per capita ratio if needed. The middle ground approach of state in urbia and rural anarchy is a form of the Englishman logical fallacy.

As for the other scenarios, guns may be effective against rabid raccoons and poisonous snakes, but they are not the only effective actions. These arguments were just versions of "It's the end of the world, and I have a gun!". One debater went as far as to state that when Civil War II strikes and armed hordes came in raid and pillage, we would be looking like fools for having debated gun control. This is argumentum ad metum, or appeal to fear. He might as well have said we need guns to defend ourselves against the zombie apocalypse.

As for hunting, since the neolithic revolution ten thousand years ago, hunting is not a necessity but a sport. We can either do without it or require stringent regulations on it. In the last situation, the armed robber, the urgency is caused by a gun itself. What a piece of circular logic to argue that guns are needed to fix the problems they created. By similar reasoning, God exists because the Bible says so. The best course of action is not to descend into anarchy and provide a shotgun to every household, but to avoid the robber from getting a gun in first place.

Another one argues for banning automatic and semiautomatic weapons, but that advocating complete disarmament is an overreaction, and that we should still allow for rifles and pistols. Very interesting piece of logic. Mass murder is unquestionably bad, but killing only up to six innocents before police shows up is admissible. Sounds like this use of the Englishman fallacy:

Inquisitor: Would you rather be thrown into boiling water or molten lava?
Prisoner: I don't like either option. How 'bout something in between, like boiling oil?

All in all, I have not heard a single well-thought argument in favor of guns. In the same day of the Sandy Hook shooting that left 20 children dead, a similar attempt at mass murder occurred in China.  The difference is that with very strict gun laws, the attacker was armed with only a knife. There were 20 injured people. No deaths. 

Some Republicans say that guns don't kill, people do. Comparing Sandy Hook to this event in China should make it clear as day that even though killers indeed are to blame, if they didn't have weapons of mass murder, no mass murder would have taken place.