6/16/13

Pensando sobre o hijab.

Acabo de voltar de uma breve viagem ao Cairo, e estava querendo expor meus pensamentos sobre algo que sempre me incomodou com respeito ao mundo muçulmano. O hijab.

Para algums o símbolo máximo da misoginia no Islam, o hijab é o cerne de muitos debates acerca da situação dos direitos humanos na cultura muçulmana. As atitudes com respeito ao véu mudam de país a país: proibido na Turquia, compulsório no Afeganistão, e um espectro de leis implícitas ou explícitas entre estes extremos. Pela visibilidade, poucas outras características desta cultura levantam semelhante paixão, quer para a crítica, quer para a defesa.

O grosso da crítica ao véu se concentra na aparente coerção por trás do seu uso. Recentemente o controverso grupo Femen, que espalha sua mensagem usando nudismo como arma, focou seus holofotes para mundo árabe, dizendo lutar pelas mulheres muçulmanas, tão oprimidas que tem de usar um véu por decisão do patriarcado. O que se seguiu foi inusitado. Uma chuva de mensagens sob a hashtag de "orgulho da mulher muçulmana", dizendo, entre outras coisas, que o hijab era sua escolha e que nudismo não as liberava. Talvez a melhor resposta tenha sido a mostrada abaixo:


Tradução: "Nudismo NÃO me libera e eu NÃO preciso de salvação"

Estão parcialmente com razão tanto o Femen como as mulheres muçulmanas que participaram da resposta online. O protesto do Femen foi catalisado pela reação desproporcional ao protesto da ativista tunisiana Amina Tyler, que postou uma foto sua nua, com dizeres em árabe escritos em sua pele (foto abaixo)


que, em bom português, quer dizer: "Foda-se o seu moralismo. Meu corpo é meu, e não é fonte de honra de ninguém".

Por esta foto, Amina Tyler foi ameaçada de morte pelos conservadores religiosos que tomaram o poder no vácuo que se seguiu à primavera árabe no país. Como Amina Tyler ou qualquer pessoa deveria poder se expressar sem correr risco de vida, o Femen tem o direito e o dever de a defender. Mas, por outro lado, a visão delas acerca do hijab é um tanto etnocêntrica.

Ainda que para muitas o hijab seja uma imposição social, ele é, em essência, uma escolha. A função do hijab é cobrir uma parte do corpo considerada provocante. Há, portanto, pouca diferença entre hijab e um sutiã de biquini. Se o objeto sexualizado é diferente, o princípio é o mesmo, e usar ou não o hijab é, para a muçulmana, uma escolha similar à que tem a carioca em fazer ou não top-less na praia. O top-less não é proibido, mas requer um grau de desconforto social que muitas não estão preparadas para lidar. No caso da cultura muçulmana, muitas mulheres, pela falta de instrução, não estão nem mesmo preparadas para pensar sobre o tema, e seguem, sem perceber ou questionar, a pressão social. Obviamente, essa pressão social também existe no mundo cristão. Basta ver os estados da América Central ou mesmo a condição da mulher em áreas pobres do Brasil. A diferença é que no nosso caso não existe uma componente tão visível quanto o véu.

Entretanto, se a maioria das muçulmanas sem acesso a instrução não está em capacidade de chegar a uma decisão informada e aceitar a pena social, a história é outra entre as mulheres da classe média instruída, glamourosamente à fora mostrando ombros e decote. Como estas jovens egípcias abaixo, durante os protestos na praça Tahrir:



E, mesmo entre as mulheres de classe média que escolhem usar o hijab, o que se nota é uma versão "fashion" do famigerado pano. Hijab e maquiagem. Hijab e óculos esculos. Hijab e roupas da moda.



Decididamente o véu nesse caso passa longe da compulsão. A conclusão é que o hijab, para a vasta maioria das mulheres no mundo muçulmano é uma escolha, e a misoginia aparente no mundo árabe é fruto da falta de investimento em educação. A questão do hijab é, portanto, a questão da pressão social, de dar à mulher o direito e a capacidade de pensar por si própria e respeitar sua decisão, sem rotular de puta a que rejeita, nem de oprimida a que aquiesce.

Por fim, em um relato pessoal, devo notar que o hijab também existe para homens, ainda que em outra proporção, como pude vivenciar no Egito. Da mesma forma que se espera que mulheres não mostrem ombros, cabelo, e decote, homens não devem usar bermudas, e também não devem mostrar os ombros. Sob o calcinante calor do deserto, os egípcios levam suas vidas, dia após dia, vestindo calças compridas. Sem saber deste fato, eu pus na bagagem uma pequena coleção de bermudas, como quem esperava um resort praiano. En route, fui avisado que seria melhor não usar, especialmente em lugares religiosos, como mesquitas. Já no segundo dia, no calor com aquela calça jeans apertada,  antecipava a hora de chegar em casa e poder vestir uma bermuda. No terceiro dia já estava pensando em comprar uma galabeya, o vestido longo que homens usam, leve e que cobre as pernas (veja Alexander Siddig vestindo uma nesta cena abaixo, em Cairo Time, 2009).




O Ahmed, meu anfitrião, dizia que a galabeya é bem refrescante, você usa e sente o vento circulando. Era realmente tudo que eu queria. Seria muito melhor que a calça jeans.

Aliás, eu comentei com o Ahmed sobre isso uma vez, que eu tinha sido aconselhado a não usar bermuda, pra não desrespeitar as sensibilidades. Ele me olhou como se eu fosse de outro planeta.

Quando saímos mais tarde, ele foi de bermuda.

2 comments:

  1. o hijab não é proibido na Turquia, acho que aproximadamente metade das meninas que vi lá em viagem relativamente recente (2012) usavam. mas ouvi dizer que a burqa é proibida lá - e realmente, vi pouquíssimas mulheres usando, acho que só em aeroportos, visivelmente estrangeiras.

    ReplyDelete
    Replies
    1. O hijab na Turquia é proibido em universidades, edifícios do governo e edifícios públicos. Não há proibição na esfera privada e outros espaços públicos. A média de uso no país é 70%, mas em Instanbul apenas 30% das mulheres usam. O grau de uso sobe com idade e cai com instrução acadêmica.

      http://en.wikipedia.org/wiki/Headscarf_controversy_in_Turkey

      Delete